quarta-feira, agosto 31, 2005

"Segunda-Feira

Este novo ser de cabelo longo é um valente empecilho. Anda sempre à minha volta e segue-me para todo o lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais.

(...)

Domingo

Esta manhã fui dar com o novo ser a tentar deitar ao chão maçãs daquela árvore proibida.

(...)

Segunda-feira

O novo ser diz que se chama Eva. Tudo bem. Não tenho objecções. Diz que é para o chamar quando quero que ele venha. Eu disse que, nesse caso, era supérfluo. Esta palavra fez-me subir na sua consideração e é, de facto, uma longa e boa palavra capaz de suportar a repetição. O novo ser diz que não é um ser, mas uma Ela. Dúvido, mas tanto me faz.

(...)

Sábado

Ela ocupa-se com as coisas mais parvas; a saber: descobrir porque é que os animais chamados leões e tigres vivem de erva e flores quando, segundo ela diz, o tipo de dentes que têm indica que se deviam comer uns aos outros. Isto é uma idiotice porque isso seria matarem-se uns aos outros e isso introduziria aquilo que, segundo sei, se chama "morte", e morte, tanto quanto sei, ainda não entrou no parque. O que é uma pena, em certas ocasiões."


Excertos dos diários de Adão e Eva
Mark Twain

O cáubói não quis deixar de partilhar.
Saudações

terça-feira, agosto 23, 2005



O BANHO

Ontem tive um programa diferente.
Fui ajudar a apagar um fogo que desde sábado "comeu" uma porrada de hectares da mais bonita serra que conheço neste país.
Tudo isto se passou numa zona perto de São Pedro do Sul, distrito de Viseu. Fui lá parar porque o pai da minha namorada tem uma casinha colada a um pinhal no meio do vasto nada de árvores que é aquela serra. A casa tinha sido estreada por mim e pela Joana no Verão passado e por isso é-me especial.

Sou um menino da cidade e nunca tendo visto fogo sério de perto senti aquilo de uma maneira diferente de quando vejo na televisão. Nas várias aldeias por onde andei vi de tudo. Do melhor ao pior. Momentos complicados trazem sempre ao de cima os extremos das pessoas.

No domingo vi a meio da noite umas 50 pessoas a cortar árvores a um ritmo alucinante para tentar cortar o fogo. Lutavam desesperadas para que não chegasse às suas casas. Todos unidos para se safarem. Não havia um único bombeiro, os quais andavam por outros lados a tentar salvar outras casas já sem dormirem à dois dias.
As caras das pessoas...

Já ontem, chegados às oito da manhã à serra de onde tinhamos saído pouco antes, ajudámos bombeiros e "locais" a salvar umas casas além da nossa. Os gajos eram muito poucos, estafados, e com material escasso mas com contra-fogos e esperança da boa conseguiram controlar a frente e nenhuma casa ardeu.

Depois, fiquei por lá eu, o Jaime e o Zé Pinho, os três para controlar possíveis reacendimentos nos pinhais por trás do Bodeal, a povoação de meia dúzia de casas mais perto da nossa. Apagámos umas tantas fogueiritas que teimavam em relançar o Fogo e a coisa foi-se safando. Pelo meio, e apesar de nunca conseguir ligar para ninguêm por falta de rede de telemóvel, toca-me aquela merda e era uma gaja do banco a perguntar se queria um cartão de crédito novo...

Deviam ser umas 3 da tarde e vejo que numa encosta à direita da casa o cabrão tinha re-acendido com uma força que não era controlável por dois (o Zé tinha ido buscar água) gajos com ramos de pinheiro verde nas mãos. O Jaime atirou-se para lá a correr serra abaixo e eu meio borrado fui atrás.
Uns 3 minutos depois tinham aparecido mais cinco tipos da aldeia do Fujaco. Lutávamos aos gritos e apercebíamo-nos que não dava. Aquela merda ia arder em direcção às casas e os bombeiros já se tinham pirado para outro lado.
De repente, vindo do nada, aparece um helicóptero e larga-nos em cima uma carga de água de todo o tamanho.
Foi um momento díficil de descrever. Um calor de morte e sete gajos que nunca antes se tinham visto, ensopados, às gargalhadas e com abraços pelo meio, a apagar um fogo no meio de uma serra no fim do mundo.
Depois de controlado desapareceram no mato. À parte do Jaime, não mais devo ver esses tipos na vida.
Acabei o dia a beber uma Sagres e a falar com uma senhora de 97 anos que ali tinha vivido desde sempre, nessa aldeia de xisto linda que é o Fujaco. Ela já tinha visto aquilo arder várias vezes e não estava nem um bocadinho preocupada.

Há mais para contar destes 3 dias de fogos mas agora estou em Viseu, doi-me o corpo (apesar de ter dormido 12 horas) e tenho o nariz e garganta lixados do fumo. Já não me sentia tão vivo desde que o meu filho nasceu.

domingo, agosto 21, 2005

Uma pequena nota à Bossa Nova, Bossa Nova, Bossa Nova

Caipábossa no Angels com convidados

Nada melhor que chegar do norte e ver a lua cheia sobre a praia e os amigos reunidos a celebrarem a alegria da Bossa Nova. A noite foi muito especial. O grande Afonso acompanhou a maioria dos temas, sempre cheio de Swing no pandeiro e percussão. O Ricardo Jacinto deixou o público fascinado com o seu violoncelo, o Eduardo Viana brilhou nas teclas com um solo de aplaudir de pé e a Sara não ficou atrás no saxofone. Os restantes membros da banda, os efectivos Gonçalo, David, João e Cristina já nos habituaram a concertos de bossa nova bem seguros, descontraídos e de qualidade. Soube mesmo bem.

Quem tem medo do Paredes de Coura?


Esse belo espaço verde muito convidativo para cáubois cansados de uma vida de buzinadelas e dióxido de carbono. Não há sitio mais bonito que aquele para equilibrar a euforia do rock, o desapego do jazz e a transalhada que moí os cérebros apagados.
Mas vamos ao que interessa, o cartaz era dos melhores, havia sempre algo a descobrir.


Jazz na relva
Nada de grandes surpresas, entre os delírios dos Cheese Cake Project e os Geegush, embora os últimos nos tivessem presenteado com alguns momentos bem agarrados de funk. No final os dois grupos juntaram-se naquilo a que chamaram de Space Ensemble, ou na versão do cáuboi, Space Cake, porque a bipolaridade era muita. Não foi nada de surpreendente, algumas malhas perdiam-se entre os desvarios do free jazz, mas sabe sempre bem perdermo-nos de vez em quando.
No dia a seguir o Jazz na relva ficou aquém das minhas expectativas de faroeste com o Miguel Martins trio. Nada selvagem, uma guitarra chata, porém com bons momentos no contrabaixo do Carlos Barreto.
Mas a grande revelação do jazz na relva foram mesmo os Filactera Redux. O trio animou as hostes cansadas de pó, subidas íngremes e muita, muita cerveja. Uma banda consistente, um teclista genial com um Morg e um baixo Fender Rhodes de duas oitavas, um baterista a ler pautas mas sem perder o norte. E o Mário delgado dispensa apresentações, com uma presença divertida em palco, à vontade, em contacto directo com o público, contando as histórias dos heróis de banda desenhada que inspiraram o projecto. Todos num ganda groove, Sim senhora! Às tantas vira-se para o público e diz “Agora estou farto de heróis bonzinhos!”

No palco principal os bateristas queriam cantar

!!! chamaram a atenção pela dança inusitada do vocalista que se assemelhava perigosamente a table dancing. Este rapaz, que segundo as apresentações do festival já foi vocalista de uma banda hardcore(!!), sublinhava a certa altura: Nós consideramo-nos uma banda de Dance Music.
Foi uma alegria ver marmanjos com tanto Rhythm, todos com ganas de martelar. A certa altura eram três às voltas na percussão e bateria. A bateria era apenas um bombo, uma tarola e um prato de choques, mas aguentava-se bem. O melhor momento porém, foi quando o baterista saltou para a frente e cantou, na opinião deste cáuboi, bem melhor que o vocalista.

Os Keiser Chiefs foram a surpresa da noite. Agarraram o público à primeira. O vocalista em euforia, torceu o pé à segunda ou terceira música, mas claro que ninguém percebeu logo. Sabíamos lá se aquele contorcer lento no palco era fruto da sua relação estreita com o rock?
Acabou a música e o rapaz lá embrulhou o tornozelo em tape encarnada e prosseguiu estoicamente durante mais um quarto de hora, vinte minutos a presentear-nos com um grande espectáculo. A certa altura, já o sofrimento era demasiado, o rapaz acaba o espectáculo agarrado ao bombo, desmontando a bateria.
Atitude, meus amigos, atitude.
Os Foo Fighters ofereceram-nos uma noite de espectáculo bem estruturado. O rapaz é comunicativo, a banda aguenta-se. Pessoalmente não estava com muita vontade de os ver, mas que eles sabem a lição, sabem. Entretanto, Dave Grohl salta para a bateria, o público puxa as raízes aos cabelos, o baterista agarra na guitarra e transforma-se em vocalista, contente da vida:
“Tenho o privilégio de cantar numa banda com o melhor baterista do mundo.”


No segundo dia a grande expectativa caía nos sinhores Queens of The Stone Age, mas antes deles pisaram o palco os Hot Hot Heat, com um vocalista cheio de tiques do Mick Jagger, os Arcade Fire com um estaminé enorme, dois violinistas, uma teclista-acordeonista-etc, com uns meninos que faziam umas performances de percussão, perseguindo-se à paulada na cabeça bem protegida com capacetes de moto, em coreografias inusitadas. Not my thing, mas já sei do que se trata.
The Roots olearam os ombros ao pessoal e puxaram pelo público ávido de Rock. Os Queens lá chegaram, todos bonitinhos de banho tomado com uma teclista cheia de pose mais o seu teclado inclinado para o público, coisa rara.
Mas estavam cheios de pressa.
Músicas aceleradas, afinal o Mark Lanegan não apareceu como a imprensa fez o favor de endrominar, e nem sequer tivemos direito a encore. Mas para quem as expectativas não estragaram o saborear do momento, foi um bom concerto com os clássicos, pão pão, queijo queijo,só que sem magia.
Os Pixies são os Pixies e mesmo quem não os conhece muito bem sentiu o bichinho de ir para o meio apreciar como se mantém viva a chama do rock.

O último dia foi um dia de enormes surpresas, o melhor. O cáuboi havia recuperado da ressaca de cerveja e meia desilusão com os good moods do Mário Delgado mas nem adivinhava o que se seguia. Juliette Lewis é um animal de palco cheia de reminiscências lascivas de Iggy pop mas nem banda, The Licks nem canções enchem o buraquinho mais pequenino do ouvido. A voz é sexy, rouca, com falhas bem temperadas, mas o resto deixa muito a desejar. Ao que parece a senhora gosta de ter músculos e fazê-los sentir, e para o comprovar lá se propôs a um crowd surfing no final do espectáculo.
O Vincent Gallo foi uma surpresa para muitos e um bálsamo para os restantes. Na sua calmaria, acompanhado por um guitarrista e uma baterista chamada Theresa, muito grávida, com uma voz de anjo que calava os mais descrentes, ao que parece também mulher do rapaz. Ele ainda convidou meninas para o seu hotel no Porto em tom de brincadeira e relembrou com espanto com as big bobbies da Teresa Villaverde que o deixaram estupefacto num dos melhores dias que o rapazito viveu nos anos oitenta em praias de Portugal. Muito bom. Volta sempre.
Nick Cave foi no meu entender a melhor surpresa deste festival. Os Bad Seeds são umas das melhores bandas que já vi ao vivo. Competentes, cheios de pausa, engravatado-desgraçado-boémios com uns abanares altamente dramáticos, um coro excepcional, duas baterias, dois teclados mais um piano vertical para o mestre Nick e um violinista que fazia maravilhas com o violino, ora com o arco, ora tocando-o como se de uma guitarra se tratasse, e no seu estamine estava também um bandolim(?)e qualquer coisa que não me lembro.. Alguém estabeleceu uma comparação com corcunda de Notredame ao rapaz que não parava de se curvar sobre o violino com uma fúria apaixonada, quase sempre de costas para o público. E o Nick lá cantava e dizia de sua justiça provocando o público com a sua voz grave e profunda em textos não menos densos.
Um set muito bem escolhido, repleto de momentos épicos, o melhor do festival.

Bem, vou manjar que tenho fome.
Sintam-se á vontade para discordar ou acrescentar pormenores.
Saudações do cáuboi.

quinta-feira, agosto 11, 2005

Maria,

Queria hablar contigo sobre un proyecto que me gustaria muito de hacer contigo,

Afonso

sexta-feira, agosto 05, 2005

Sines

Só lá chegámos na sexta-feira, ou seja, perdemos o primeiro dia.
O Marc Ribot largou um free jazz/funk rasgado que pôs o meu filho a dormir em três tempos. O puto é novinho mas já percebe umas coisas de música. Também eu fiquei um bocado desiludido com o concerto. Houve sem dúvida "momentos" mas a tendência para o óbvio, dentro de uma estética em que de óbvio não devia haver nada, reinou. Para mim, só quando as coisas roçaram canção aquilo teve piada.

A senhora Astrid Hadad deu gozo embora este palco talvez não seja o que lhe permite melhor chegar às pessoas. Gostei. Houve quem não gostasse.

Mesmo com grande tesão musical o cansaço e o facto de levarmos o bébé não nos deixou ver, para enorme pena minha, o concerto de Hermeto Pascoal. Diz quem viu que foi genial. Tambem ouvi quem não tivesse percebido o que era aquilo. Mandem comentários se tiverem assistido.

Master Musicians of Jajouka

MMJ


No Sábado tocaram os senhores marroquinos cujas fotos podem ser vistas abaixo.
Foi quase só por eles que quiz ir a Sines.
Gostei mesmo muito de ouvir ao vivo o que apenas conhecia de discos.
O cagaçal sónico que atingem em certas músicas tem muito do que conhecemos mais no rock de riffs, como também do free-jazz na repetição exaustiva de frases em uníssono.
Valeu a pena. Ainda mais porque por sorte chegou-me às mãos um passe que deu para ir aos camarins e falar com dois deles. Hei de ir a Jajouka visitá-los...

Nessa noite ainda ouvi KTU que não detestei mas tambem não gostei muito. Épico demais para o meu gosto. Muito aparato para, como resultado musical, uma série de coisas gastas. Por vezes a roçar o metal e o rock industrial mas de uma maneira básica, sem trazer nada de novo. Senti o acordeão como uma guitarra de dois braços, estilo hard-rock foleiro mas espalhafatoso.
Apesar de isto tudo tambem houve um momento ou outro em que fizeram o castelo entrar em transe.

A seguir ainda houve Kila, Irlandeses cujo som me pareceu um bocado pensado demais. Género "bora lá pegar nos nossos sons típicos e tocar aquilo que faz o povo dançar(que está na moda)". Não gostei e pirei-me para ir ver se o bébé, que se tiha pirado com a mãe durante Ktu, estava a dormir bem.
Perdi outro concerto, o que fechou o festival, dos Konono n.º1 que devem ter levado a fricalhada à loucura. Alguem viu? Digam-me como foi!

Bem, vou-me pôr a andar. Estou de férias e só volto a pôr os pés no blog lá para dia 15. Até logo.

MMJ

MMJ

MMJ

quarta-feira, agosto 03, 2005

AVISO A GUITARRISTAS E CÁUBOIS

Guitarristas, acautelem-se.
O cáuboi deslocou um osso da coluna vertebral porque teve ganas de tocar à uma da manhã.
Se estiverem muito tempo parados e a musa vos assaltar do nada, se faz favor façam aquecimento primeiro.
Não vos desejo o que passei nos últimos dias…
É que depois arriscam-se a visitar o endireita e a ouvir os vossos ossitos todos a estalar com uma facilidade dos diabos.
Momentos antes do senhor me estalar o pescoço para o lado direito, no meio de uma conversa supostamente relaxante sobre cinema, cheguei a pensar que o tipo bem disposto e risonho podia mandar-me desta para melhor se quisesse e que as minhas últimas palavras seriam:
JOHN WAYNE
Fellini, Cassavetes, Woody Allen!!!!(Krrrrrk)
Estala uma vez.
Auchhhhh! Não sabia que isto era possível!(krrrrrrrk)
Estala a segunda.
JOHN WAYNE
(a agarrar no chapéu)
Ok. Certo, está óptimo. Já acabou, não é?
DR
Não. Agora vamos tratar desses pulsos.

Estala-me os polegares, encaixa-me as falanges, falangetas e falanginhas e eu a pensar: Se não conseguir tocar ou cavalagar mais,eu, eu.... processo-o.

Havia de me servir de muito...

Saudações do cáuboi